Eu sempre quis entender: porque não entendo, escrevo. Como jamais entenderei, até o fim da vida tentarei expressar em palavras e entrelinhas esse desejo inalcançável.

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19 de novembro de 2012

Digamos que as coisas não sejam tão efêmeras como um arco-íris. [desconhecido]
Tenho medo de ficar velha e não encontrar um bom motivo para amar as minhas tatuagens enrugadas, o meu corpo colorido. Tenho medo de ir embora daqui para outro Estado e passar o resto da vida me mudando e tentando me adaptar a algum lugar. Medo de não descobrir a cura para um coração doente de saudade. De não encontrar a resposta que alivie uma dor antiga, nem encontrar a receita que aproxime os corações. Tenho um medo danado de morrer sem ter pedido desculpa. Aquela desculpa de uma culpa que eu levei anos para sentir. Medo de perder a visão, de perder o equilíbrio e cair do alto da minha montanha de ego. Não quero inflar tanto a ponto de perder a visão do meu umbigo, nem achar que o mundo todo é ele, e nada mais. Tenho medo de nunca mais sentir aquele friozinho na barriga avisando que algo muito bom vem por aí. De deixar de ser patética, engraçada, esquisita, descarada. Medo de nunca experimentar o amanhã, o depois de depois do amanhã. Tenho medo de nunca descobrir se aquilo era mesmo amor, se era paixão ou apenas curiosidade. Medo de descobrir que eu realmente podia ter feito alguma coisa para impedir qualquer outra coisa ruim de acontecer. Que eu realmente deixei alguma coisa por dizer. Que a minha dúvida me desviou de alguém que não devia ter desviado. Que a minha miopia me aproximou de algo que não devia. De não ver graça nas coisas simples, de me esquecer do que realmente preciso e precisar de cada vez mais coisas para me sentir viva. Tenho medo de nunca mais segurar aquela mão pequena. Nunca mais ver aqueles olhos brilhando. Medo de desistir de você. Desistir de mim. De ganhar quilos e mais quilos de covardia acumulada. Não quero ser de plástico. Não quero nunca amar qualquer coisa que seja de plástico. Tenho medo de perder o caminho de volta para casa. Medo de pirar de madrugada, fazer as malas e querer voltar. De ficar com medo da chuva. De me esconder embaixo da cama por dias. Medo de este medo me partir em dois, de ele me engolir inteira, me cuspir apenas os ossinhos para fora. Medo. De ter medo para sempre e não ter mais nada, além disso.
 
 Camila Heloíse
https://asombradomar.com.br

6 de novembro de 2012

O que eu queria contar pra você

“E pintava tantas vontades naquela tela,
com tanta pressa, que os sentimentos se borravam todos
e ficava só aquela mancha vermelha de coisa feita para arder.” [Jaya Magalhães]
 
Queria te contar alguma coisa bonita sobre mim. Mas abandonei a dança e o teatro há anos e não sei mais se algo é bonito na minha vida, além disso. Fiquei com vontade de abrir um livro meu no teu colo e ler em voz alta pra você rir baixinho da minha confusão com as palavras. E que você elogiasse a capa, a contracapa, e a minha ousadia.
Queria te contar dos sonhos que realizei. Mas falta pouco pra faltar quase nada. E eu não realizei nenhum deles, fui apenas me desfazendo como quem doa uma roupa velha. Deixei meus sonhos envelhecerem como tecidos. Desbotados, rasgados e imundos, depois me desfiz. Mas eu queria poder contar pra você que eu realizei alguma coisa que fosse minha.
Queria te contar alguma coisa que te fizesse rir e me achar interessante e engraçada. Mas eu não vejo graça em mais nada em mim, a não ser no jeito estranho que tenho o costume de me vestir. Meu desejo é que você me achasse a mulher mais incrível da rua, e repetisse isso ao pé do meu ouvido, levantando meu vestido azul.
Queria te contar dessa máquina que carrego no peito e que eu já sei dominar. Queria que assim você ficasse mais um pouco, me colocasse em teu colo e me beijasse profundamente. Queria te mostrar que eu posso ficar do teu lado sem falar de amor. Que eu posso fincar no teu peito sem chorar depois.
Queria te olhar de longe, mesmo com o meu peito colado no teu corpo. Não mergulhar na tua retina, não me afogar. Encontrar o ponto de equilíbrio que busco ha anos pra não perder a minha noção de vista quando você coloca sua mão na minha cintura. Quando você coloca a sua língua em minha boca e causa um estrago danado no meu coração.
Queria te contar alguma coisa bonita sobre mim. Alguma coisa calma, lenta e leve. Alguma coisa nova e independente. Alguma coisa que te desse vontade de ouvir, e ouvir, e ouvir sem querer fechar os olhos e se desligar. Mas daí, teria que contar de outra, que não eu. E mentir eu não quero.
Deixa pra depois
 
 

5 de novembro de 2012

Faz acontecer

A gente precisa acontecer na vida, menino.
 
A vida às vezes vira a gente de ponta cabeça e chacoalha até derrubarmos tudo aquilo que carregamos. Nos tira a roupa, nos elimina a coragem e o que chamávamos de possibilidade. É como se algo tão denso nos fosse colocado no colo que é obrigatório soltar tudo o que se tinha para suportar o peso. A vida nos embaralha, um sopro tão forte nos transformando em meros desconhecidos, desconexos. E quando a gente volta a postura normal, restam olhos e semblante perdidos. Lábios secos e carregados de medo. Parece até que a vida teve fim e o que poderia ser, não nos pertence mais. Mas é só quando a gente coloca o pé no chão que entende: possibilidade mesmo não são aquelas coisas que imaginamos que nos pertencem, não é ter embaixo dos braços um punhado de quase certezas que contam com o acaso e com a sorte. Possibilidade é começar do zero – com as mãos vazias. É mais do que acreditar – é fazer acontecer